terça-feira, 11 de junho de 2019

Espionagem e jornalismo como militância política




 Depois do jornalista americano Glenn Greenwald postar no portal "The Intercept" mensagens  roubadas de celulares hackeados do Ministro Sérgio Moro e de integrantes da força tarefa da Operação Lava Jato, tem surgido informações de que ele estaria associado ao hacker americano Edward Snowden, o que divulgou informações de que  seu governo, na época presidido por Barack Obama, monitorava informações sobre pessoas, bem à moda Big Brother, ou “1984", de G. Orwell, sem que isso fosse aprovado ou, pelo menos, conhecido pela população.

Em 2016 tentei fazer uma  análise• da qual retirei as partes relativas a Snowden.

Com tais informações, e diante de tudo o que temos observado sobre o envolvimento de jornalistas na  militância política, sobra espaço suficiente para supor que o rapaz, agindo de boa fé, e confiando na idoneidade dos profissionais, foi mais uma vítima do jornalismo militante, sem ética.  Foi traído pelo bom conceito que fazia do jornalismo.

Pode ter sido vítima de uma cilada, uma vez que o jornalista a quem entregou os arquivos reveladores era envolvido com as forças que tencionam dominar o mundo, as que preferem que todos os "whistleblowers" (Expressão inglesa que pode ser traduzida como 'sopradores de apitos' para designar pessoas que alertam a humanidade para determinado fato que significa grande perigo.) sejam vistos como traidores da pátria, para que ela possa continuar a ser, cada vez com mais força, conduzida por mãos de ferro que, em nome da segurança, tratam todos os cidadãos como se fossem pessoas incapazes de escolher as próprias condições de vida.

Apesar de manifestações populares a seu favor, a mídia voltou o foco para a  “traição" que havia cometido, ao invés de defendê-lo como fonte de informações tão preciosa. Ele foi execrado, e hoje vive asilado no país que sempre considerou o principal inimigo do seu povo. Ele, que vivia e se arriscou para defender a LIBERDADE, que sempre foi a bandeira do seu país. 

Por outro lado, podemos fazer ilações sobre o comportamento do jornalista que divulgou os  arquivos de Snowden e do Ministro Sérgio Moro; no primeiro caso, o hacker procurou o jornal para o qual trabalhava, o inglês The Guardian, para denunciar um abuso da autoridade sobre os direitos civis da população. No segundo caso, ele pode ter se empolgado, e contratado hackers para invadir os celulares das autoridades de um país estrangeiro e publicado seus assuntos pessoais, sem que algo relevante, uma falta grave confessada, ou fato semelhante, cuja publicação fosse de interesse da população,  como no caso de Snowden.

Aqui temos uma verdadeira explicitação do modus perandi do jornalismo atual, que perdeu o sentido da própria existência: o direito do povo à informação limpa e fiel aos fatos, passando  a fazer o papel de monitor de consciências, querendo, com suas publicações induzir o povo a pensar, e agir, como o desejam seus mentores e patrões, que dominam os principais jornais do mundo. 

Os que continuam a cultivar os valores que trouxeram a humanidade até aqui, principalmente a autoridade divina, não sabem agradecer à ela a maravilha da internet, com a qual provê as necessidades intelectuais da humanidade, disponibilizando todo o conhecimento humano conseguido até aqui. O povo que cultiva os valores espirituais faz muito bom proveito de tantas informações preciosas; assim, sua visão de mundo vai se tornando infinitamente mais ampla do que a dos controladores materialistas, que têm se tornado cada vez mais míopes.

Eis o texto de 2016. Observe, e assista, os  vídeos dos links:

Em junho de 2013 o jornal inglês, “The Guardian” e o americano "Washington Post” publicam reportagens, baseadas em documentos, que dizem que a NSA, Agência de Segurança Nacional americana, monitora(va?) comunicações  via internet e telefone de pessoas e instituições do mundo inteiro. Em julho, “O Globo” do Brasil reporta que a Presidente Dilma Roussef e a Petrobrás estavam entre ‘os espionados’. A fonte era Edward Snowden, que  havia entregado ao jornalista  Glenn Grenwald e à cineasta Laura Poitras, com todo cuidado, por meio de mensagens criptografadas, as informações recolhidas em seu trabalho.

Snowden é acusado pelo governo americano de espionagem, roubo e conversão de propriedade do governo. Segundo o que foi publicado na mídia, ele era um hacker ético. Sua função era testar a segurança de redes e sistemas de computadores para observar a existência de possíveis fragilidades a serem reparadas.

 Foi ao ar em 02/06/2014 no programa Milênio, da GloboNews, a entrevista de Edward Snowden à  jornalista da Rede Globo, Sonia Bridi, em Moscou, na Rússia, onde o jovem se encontra asilado.  

 A entrevista foi muito reveladora: “Eu sou cria da internet”, disse ele. Desde bem pequeno vivia deslumbrado com os aparelhos eletrônicos, queria  desmontá-los todos para verificar o mecanismo de funcionamento. Seus pais lhe diziam que poderia desmontar os que fossem somente do seu uso, como o game, por exemplo, mas não a torradeira, ou o microondas, de uso coletivo da família. Era um adolescente inteligente, ativo, curioso e impulsivo, como a maioria dos de hoje, porém  sob orientação de pais presentes e atuantes na sua formação, como acontecia na maioria das famílias no início e meados do século passado. Uma característica que não pode ser mais observada nos adolescentes de hoje, pelo menos nos que podemos observar no Brasil. Aqui, no geral, os pais não exercem mais influencia sobre os filhos.

Snowden mostra conservar o espirito de cidadania no qual o senso de justiça é grandemente  valorizado, fruto da cultura e educação que crianças e jovens recebiam no século passado. Quando aconteceu o atentado às torres gêmeas em Nova York, em 2001, tinha 18 anos e tanta dignidade civil que alistou-se  como soldado do Exército dos Estados Unidos porque “sentia que tinha a obrigação, como um ser humano, de ajudar a libertar as pessoas da opressão” porque "acreditava  no que o governo estava dizendo na época, que o Iraque estava desenvolvendo armas de destruição em massa. Eu achei que servir era generoso, uma atitude nobre”, disse à Sônia Bridi. Por ter quebrado as duas pernas num treinamento, não pode ir para o Iraque e passou a servir seu país com suas habilidades e tecnologia por meio de instituições de serviços secretos.

Nesses serviços, o jovem acumulava informações, mas não somente as relativas aos trabalhos ordenados. Observava muito o ambiente e as pessoas com as quais tratava. Eram, muitas vezes, as que exerciam papel relevante nas decisões  tomadas pelo Estado e que interferiam na vida não só dos americanos mas nas pessoas do mundo todo.

 Com a mesma visão dos jovens de antes, ele analisava interiormente todas essas informações comparando-as com os paradigmas da formação que recebera, como pessoa e cidadão. As maioria das pessoas de hoje não são mais assim; submetidas diariamente a uma torrente de informações, tendem a ser guiadas por impulsos da sensibilidade, usando cada vez menos a capacidade analítica. Decidem pela simpatia, depois se envolvem em argumentos que confirmem o acerto da escolha, sejam eles lógicos, inteligentes, ou não.

Snowden se mostra fora desse pensar coletivo. Apesar de estar, em termos de conhecimento de tecnologia,  além da imensa maioria das pessoas da sua espécie, esses conhecimentos não fazem dele uma pessoa que atua movida por impulsos, o que o diferencia da imagem que temos dos hackers: pessoas conscientes de suas habilidades em TI ( tecnologia da informação) mas imaturas em termos de convívio social. Seguindo seus impulsos, eles realizam trabalhos inéditos, descobrem mais conhecimentos sem, no entanto, ponderar quanto a seu significado para a vida dos seres humanos neste planeta;  se considerar a História, que maioria deles desconhece, por estar quase sempre encantada pelas novas descobertas da tecnologia feitas pelos próprios.

A singularidade de Snowden é  caracterizada pelo fato dele reunir em si as habilidades dos hackers, o espírito analítico e o alcance do significado dos dados que assimilava; mas acima de tudo, está em ser comandado por um espírito de respeito pela dignidade humana, talvez maior ainda em função dos mesmos atributos. Tal singularidade  o  torna uma a pessoa que encanta os que se orgulham de serem humanos.

Com todas essas virtudes, ou mesmo por causa delas, foi a Hong Kong para entregar os arquivos a serem divulgados pela mídia do mundo todo. Começa então sua desventura,  seu verdadeiro martírio, no qual se encontra ainda hoje. Logo após a publicação das informações por ele fornecidas, seu passaporte foi cancelado, foi pedida a sua extradição, mas ele conseguiu chegar até o aeroporto de Moscou onde fica ‘preso' por 40 dias vivendo um tipo vida muito pior do que a que Tom Hanks viveu no filme “O terminal”, de Spielberg. Sentia-se constantemente ameaçado das mais diversas maneiras, tal e qual  vemos acontecer  em  filmes. 

Era considerado um traidor da pátria, não tinha passaporte, as autoridades do seu país o queriam para julgar e condenar como o pior de todos os vilões. Dali, pediu asilo a 21 países, entre eles:  Alemanha, Áustria, Bolívia, Brasil, China, Cuba, Finlândia, França, Índia, Itália, Irlanda, Países Baixos, Nicarágua, Noruega, Polónia, Espanha, Suíça e Venezuela. Os países que responderam afirmativamente seu pedido de asilo foram a Venezuela, o Equador e a Bolívia, os “bolivarianos de Chaves”, cujos governos se manifestam ostensivamente contra os EUA. Por causa do cancelamento de seu passaporte, não pode viajar, ficando retido no aeroporto. O avião de Evo Morales, presidente da Bolívia teve seu avião impedido de sobrevoar países europeus, devido à possibilidade de Snowden estar a bordo. Enquanto isso, ele permanecia no terminal, como Tom Hanks, sob grandes ameaças. Em primeiro de agosto recebe, por um ano,  asilo da Rússia, onde ainda se encontra depois de o ter renovado.


Agora, analisemos essa história tentando esclarecer que tipo de mundo habitamos e quais são os seus paradigmas; se são claros e precisos a ponto de poder serem seguidos por quem queira se considerar sensato.

O jovem Edward nasceu e cresceu no que o mundo considera o "filé mignon” do planeta. Teve todo o conforto necessário para se desenvolver com saúde e educação da melhor qualificação. Passou a infância e adolescência acreditando no sonho americano de democracia, direitos humanos e civis, que sua pátria era  a terra da liberdade, onde todos têm os mesmos direitos e deveres, para com o país e os seres humanos.

Esse pensamento pode ser  notado na sua atitude  em se alistar no Exército, depois da queda das torres gêmeas, para defender seu país e os direitos humanos. Não podendo seguir para a guerra, deve ter se sentido honrado quando foi convidado a servir ao país como o especialista em informação digital da CIA. 

Nesse cargo o jovem, naturalmente inflamado de ardor cívico, observava que alguns de seus superiores não se comportavam como os heróis americanos dos filmes de Hollywood. As formas e o uso das informações obtidas não eram compatíveis com seu cargo de hacker ético.

Segundo seu próprio relato, o estopim para detonar a decisão de comunicar ao mundo tudo o que apreendia, aconteceu quando viu, no Congresso, James Clapper, o chefe da espionagem americana, mentir ao responder: ‘Não', quando  foi perguntado: ‘Os Estados Unidos monitoram informações de milhões de americanos?’ Segundo ele, tanto Clapper quanto os deputados sabiam que estava mentindo e ninguém disse nada.

Seu fervoroso espírito jovem não podia fugir ao dever de defender o povo da mentira, divulgando a verdade. "O público precisa decidir se esses programas e políticas são certos ou errados”, disse ao "The Guardian”. Era um legítimo hacker agindo como um cidadão sensato do século passado. Ele mesmo disse  à Sônia Bridi numa matéria sobre a mesma entrevista levada ao ar, na revista "Fantástico", na rede Globo, em 01/06/2014: “Eu sentia que devia tornar isso público, com responsabilidade. E a maneira de impedir que a minha opinião prevalecesse, foi fazendo parceria com jornalistas competentes, e instituições sérias, que confio, que iriam checar as informações, equilibrar a cobertura. Como "The Guardian", "Washington Post", "New York Times", “ O Globo” e "Der Spiegel". Deixei a imprensa livre fazer o que faz melhor: ajudar os cidadãos a se tornarem eleitores informados, que pensam em que tipo de sociedade querem viver.” 

Para ele, esse debate não é sobre privacidade. É sobre liberdade. O equilíbrio entre os direitos individuais e o direito que o governo tem de coletar informações. "Se vigiarmos cada homem, mulher e criança, da hora em que nascem até a hora que morrerem, podemos dizer que eles são livres? Isso é muito perigoso. Porque mudamos nosso comportamento se sabemos que estamos sendo vigiados. É uma ameaça à democracia”; continuou falando na entrevista.

O que ganhou o jovem que seguia à risca os ideais  que seu  povo ensina às crianças e jovens ao longo vários séculos? Apenas perseguição e o título de traidor. As autoridades do seu país consideram inimigos os que o acolherem. Se deportado, poderá ser condenado até à pena de morte, uma vez que, depois da queda das torres gêmeas, os julgamentos dos chamados whistleblowers, os sopradores de apito, os denunciantes de fatos  contra o interesse público, que antes eram  reconhecidos como corajosos heróis, agora, segundo leis de excessão, de casos de guerra são vistos como traidores e desertores.  Por isso Snowden responde à pergunta de Bridi:  “Você enfrentaria um julgamento nos Estados Unidos?" com : "Eu adoraria. Mas não há um julgamento justo me esperando”.

O que aconteceu com os EUA, o país da Democracia e da Justiça?





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